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O estouro da bolha de IA: Será o fim do capitalismo tardio?

Se você, assim como eu, nasceu nos anos 1990, a perspectiva de mais uma "crise sem precedentes" não te assusta mais. Ainda no início dos nossos 30 e poucos anos, nós já passamos por pelo menos 3 grandes crises que foram descritas por políticos e burgueses como sendo "sem precedentes"— A bolha do .com em 2000, a crise do subprime de 2008, a pandemia de COVID em 2020 — e ainda aguentamos papinho de Boomer dizendo que não gostamos de trabalhar, ou que somos fracos demais para prosperar.


Para as gerações Millenials e Gen Z, o status quo é a falência constante da sociedade, seja no âmbito econômico, político ou moral.


Econômico porque, mesmo a produtividade média dos trabalhadores ao redor do mundo tendo aumentado em mais de 250% nos últimos 50 anos, os salários que estes recebem cresceram, em média, apenas cerca de 15%. Político, porque quando o presidente da nação mais consequente do planeta é um estuprador condenado por mais de 34 crimes, percebe-se que não vivemos em um mundo que recompensa honestidade e trabalho duro. Moral, porque ouvimos todos os dias que é errado se opor a genocídios e questionar grandes injustiças.


A cada ano que passa, sustentar este sistema custa cada vez mais caro. Mata-se um povo inteiro, destrói-se um planeta inteiro, cria-se desconfiança generalizada. Estamos, sim, no estágio de capitalismo tardio


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Cada crise gestada pelo capitalismo nos traz perdas gigantes, e as de ordem financeira são as menos importantes. O baque que realmente machuca a sociedade de forma quase permanente é a erosão da confiança.


Quando revelou-se que as justificativas para a invasão do Iraque em 2003 eram grandes mentiras, erodiu-se a confiança no governo dos EUA. Cinco anos depois, ao entender que a causa da crise de 2008 se deu por práticas irresponsáveis e fraudulentas dos maiores bancos do mundo, a confiança nas instituições financeiras também foi de ralo. Em 2012, o Facebook chegou a 1 Bilhão de usuários, e cada vez mais nos isolamos em nossas bolhas, condenando tudo e todos fora dela. A confiança na mídia hegemônica nunca mais se recuperou.


Hoje, em 2025, a desconfiança permeia até os símbolos mais fundamentais do capitalismo. Ao colocar Palestinos e Chineses em contato direto com cidadãos do ocidente, Tiktok e Rednote mostraram ao mundo que o mito da superioridade moral das democracias liberais era nada mais do que isto mesmo, um mito.


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Agora acrescente à esta tempestade a chegada da IA: uma tecnologia que ninguém pediu (por mais útil que tenha potencial de ser), e que ameaça a existência de literalmente todos os empregos do planeta. Ah, e uma pitadinha de Elon Musk se tornando o primeiro trilionário da história. Misture bem. Sente o cheiro? Cheirinho de capitalismo tardio.


Estas empresas e estes Tech Bros acumularam tanto poder sobre a sociedade que já é muito difícil dizer que o Estado não é controlado por estas entidades. Mas ao contrário da utopia otimista e Frutiger Aero dos anos 2000, a tecnologia não está aqui para nos salvar, ou mesmo para facilitar nossas vidas. Ela veio para consolidar o poder destes poucos.


E estes poucos, que já controlam mais de 45% da riqueza do mundo, estão constantemente enviando suas riquezas uns aos outros. Hoje, a nVidia envia dinheiro para a OpenAI comprar chips da nVidia para a nVidia ter dinheiro para enviar à Oracle, para a Oracle vender processamento para a OpenAI, para a OpenAI poder rodar seus modelos e pagar a nVidia…


Confuso? É porque estas empresas, responsáveis por toda a performance do índice S&P500, estão financiando a si mesmas, e emitindo dívidas a um passo descomunalmente absurdo. A Tesla mesmo está prometendo pagar U$1 Trilhão ao Elon Musk. Sim, a mesma Tesla que teve lucro de $7 Bilhões em 2024. De onde vão sair os outros $993 Bilhões?


O que nos leva ao ponto central deste textão: A circularidade destes investimentos está causando uma bolha.


Uma bolha com potencial para ser pelo menos 17 vezes maior do que a bolha do .com em 2000. Uma bolha que será gerenciada por políticos tragi-cômicamente incompetentes como Trump, Merz, Starmer, Macron, Meloni, Putin…


Uma bolha que vai encontrar uma população global em um clima político extremamente hostil, e que está fazendo os super ricos construirem bunkers auto sustentáveis. Uma bolha que vai atingir a classe trabalhadora como um certo meteoro atingiu a Terra há mais ou menos uns 65 milhões de anos atrás, e causou extinção "sem precedentes".


O choque de realidade dificilmente será justificado pelos negacionistas, e, na verdade, os sinais de que as pessoas já estão cansadas desta distopia estão se manifestando agora mesmo: a eleição de um socialista muçulmano nascido na África para a prefeitura de Nova York.


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Zohran Mamdani venceu uma eleição contra figurões do próprio partido, contra interferência do presidente dos EUA, e contra a classe dominante estadunidense com uma mensagem de campanha centrada no custo de vida. Nada de inimigos, nada de bodes expiatórios, nada de bicho papão.


Poderíamos falar aqui também da queda meteórica da reputação dos EUA em 2025, da queda na confiança no dólar, das tensões sociais criadas pela ICE em solo norte americano, do abandono da Ucrânia pelo ocidente, das fragilizadas posições geopolíticas da UE e dos EUA… os sintomas de esgotamento da Pax Americana são muitos.


O desgaste comunicacional do pânico moral, da polarização política forçada, e principalmente, dos mitos neoliberais de meritocracia estão finalmente chegando ao mainstream político dos países mais consequentes do mundo (BRICS + G7).

Apenas uma fagulha nos falta para incendiar toda esta palha política que acumulamos ao redor do mundo.


E já se pode ouvir o riscar de fósforos…

 
 
 

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